90
Tenho 90 anos
nenhum sofrimento
não invento minha idade
Tenho 90 primaveras, verões,
outros tantos outonos e
intragáveis invernos
Tenho mais idade que jamais sonhei
mas, por dentro, no dizerem alma,
sou mais velho que um convento
da Idade Média,
com seus maciços portões,
seus sorumbáticos muros úmidos
Tomo banho todos os dias,
vejo descer pelo ralo
as dúvidas do dia anterior
Ao abandonar o terno, não perdi a ternura,
porém metade da arrogância e
da necessidade de aprovação.
Deixei no lixo dos dias mal resolvidos
os restos de um amor,
conquanto conserve a reza
pelos desafortunados
As negativas de sua vida,
caro leitor,
incomparáveis ao não por ela dito
e redito em monossilábico olhar.
Sem revoltas indago ao Criador
o porquê de ausência do prazer
na perseguição da verdade,
reservada aos surdos que evitam falar.
Vida, farei de ti um hino !
Sobram-me 90 dias, ou minutos
talvez segundos,
um tempo que salta feito cabrito
em vidas que se visitam,
pela determinação divina
pelo acaso
pelo marasmo
e assim pasmo
diante do anacrônico samba do destino.

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